Que linhas me ligam ao velho prostado ao meu lado,
deitado na maca 03, além de uma mulher
- a quem chamo de mãe e ele, de filha -,
uma remota humanidade e os versos de Borges, em seu solitário e belo ocaso?
Mesmo em um corredor de hospital, cercado de decrepitude e doença,
é preciso ler sobre a velhice pra sentir alguma misericórdia?
E se for isso, então o que faço aqui?
O que fazemos nós, junto a outros acompanhantes da morte e seus familiares pacientes,
aqui, onde só é bem atendido quem deseja a morte,
dividindo água e biscoitos, e rezando a Deus que ninguém se vá no nosso turno?
Em uma maca sem número, logo ao lado, uma (im)paciente mulher faz a passagem,
sem prestar qualquer atenção aos protestos da irmã ou às inúteis tentativas
do enfermeiro de colocar a alma de volta em seu corpo
São 03:52.
Horas antes, uma louca, noiva e filha de todos os que passam,
gritou a verdade impronunciável do lugar:
- Ela vai é morrer!
Aqueles que ainda podiam andar cercaram a morrente,
como os discípulos de Sócrates, esperando o gole de cicuta
- mas não há lei alguma sendo cumprida aqui!
De relance, os familiares olham para os seus doentes e,
só por um segundo, pensam:
- Ainda bem que não foi ele!
(Arnaldo Vieira, Socorrão II, 2009)
domingo, 25 de outubro de 2009
sábado, 27 de junho de 2009
Espólio

I
Do sonho, outrora imponente gigante
a reinar nos oceanos,
resta a carcaça à beira-mar.
cada pescador retira seu quinhão,
Mas são tantos os famintos pra tão pouca carne.
Do amor, cujo fim há muito fora previsto
pelas negras nuves em (con)formação,
Precipitara-se tempestade, surpreendo os passantes
- já não se sabia o que era a chuva e o que eram as lágrimas.
As memórias, saqueado navio, nunca chegaram ao porto,
nau-fragadas em alto-mar, ou seria no Lethes?
E de lá, rumo ao fundo, grita o capitão:
"- Ao vencedor as batatas!"
Mas já não se sabe quem venceu.
II
Tudo que chega à praia,
é uma caixa com seus pertences,
E nela seu testamento:
"Como último ato de vontade,
Das minhas parcas posses, que fique a melancólica gaita
aos que ainda vem, trazidos pelo vento.
- O Blues como herança!
Os silentes livros à crepitante fogueira, que a tudo põe fim.
As roupas, tão gastas, à terra, para cobrir suas vergonhas -
e são tantas, meu Deus!
E que a bússola tenha meu mesmo destino,
Esquecida de si, não aponte a direção aos que estão por vir
- serão livres o que não tem norte a seguir."
(Arnaldo Vieira)
sexta-feira, 19 de junho de 2009

Julio era daqueles, iguais só a ele mesmo, que não usava meias. Nas festas black-tie que costumava frequentar, os seus calcanhares eram, sem dúvidas, uma das grandes atrações. Eram tão redondos e branquinhos que pareciam até sorrir aos convidados.
A sua razão para deixar à mostra tais maravilhas da natureza era bem mais simples que sua boniteza; era que todas as meias que comprava ou ganhava das tias no natal eram imediatamente destinadas à proteção de sua coleção de bumerangues australianos contra os arranhões e intempéries de seu bem climatizado quarto.
Toda vez que lhe perguntavam sobre o porquê de tal insistência em não usar as meias, Julio sempre respondia que não as usava pelo simples fato de não ter dinheiro para comprá-las.
"É que a verdade é tão pouca imaginativa.", pensava sempre consigo, ao deixar os rostos em dúvida atrás de si.
A sua razão para deixar à mostra tais maravilhas da natureza era bem mais simples que sua boniteza; era que todas as meias que comprava ou ganhava das tias no natal eram imediatamente destinadas à proteção de sua coleção de bumerangues australianos contra os arranhões e intempéries de seu bem climatizado quarto.
Toda vez que lhe perguntavam sobre o porquê de tal insistência em não usar as meias, Julio sempre respondia que não as usava pelo simples fato de não ter dinheiro para comprá-las.
"É que a verdade é tão pouca imaginativa.", pensava sempre consigo, ao deixar os rostos em dúvida atrás de si.
(Arnaldo Vieira)
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Eternamente

Precipitando-me de teu céu,
Após sentir tuas nuvens entre minhas penas,
Fui pedra em escrava queda rumo ao teu solo.
"Não há muito a fazer quando a vontade coincide com o destino"
Bicho renascido, percorri-te a terra, insaciável,
Cego de em tudo te ver e louco de nunca alcançar-te.
Comi-te os frutos, mas nada são sem que te sejam partes
E, à parte disso, continuaste inteira em tua distante boniteza.
Sedento de ti, enxerguei-te fonte a jorrar sem rumo,
E com humanas mãos em sangue, em teu chão abri-te caminho,
criei-te leito onde teu inquieto sono pôde correr de-vagar,
Cobrindo-me por completo com tuas águas.
E, nessa hora, fugindo-me toda a tua respiração dos pulmões,
Preenchido de tua escuridão, estive morto e acordei,
caudaloso rio, desembocando eternamente em ti.
(Arnaldo Vieira)
terça-feira, 7 de abril de 2009

Uma das mãos na barra de apoio do ônibus,
Na outra, uma flor amarela de plástico.
Os sapatos azuis e vermelhos pulam, acompanhando o resto do corpo
a cada buraco que a mira perfeita do motorista acerta.
O palhaço chora.
Todos, gargalhando, acham que é parte do show.
"Vocês estão rindo de que?",
pergunta enquanto vende cartões cheios de mensagens de amor e solidariedade.
Que culpa ele se o choro soa tão cômico?
Meio metro ou dez pessoas à frente, um cego equilibrista pede esmolas
com uma das mãos, enquanto a outra segura a bengala.
"Deus conserve seus olhos!"- diz ele pra quem não lhe enxerga.
"Deus lhe pague em dobro!" - é o último recurso do sarcasmo.
Mas o que dizer pra Deus?
O professor de matématica ouve a conversa do lado,
enquanto segura seus livros e se segura no outros:
"- Agora já não é mais um triângulo. É um quadrado..."
Não há aqui nada pra ele; é só a geometria dos amores da novela das oito.
40 pessoas sentadas e 30 em pé, diz a placa.
"Não sei mais contar ou as 20 que não tocam o chão nao merecem referência?
Quero a abstração dos números, meu Deus!
As pessoas me doem os pés."
Lá no fundo comentam sobre o novo Zoológico gloBBBal:
"-Eu mesmo não assisto, só vi porque tava mudando de canal..."
Um outro lê no jornal:
"PRESUNTO NO FIM DE SEMANA!", "enquanto durar o estoque"
- só que é a mesma notícia nos anúncios e nas ocorrências,
e o estoque nunca acaba.
" - Um cara uma vez me disse que é antigo esse negócio do novo repetir o velho",
diz uma vozinha chata e bem baixa lá no fundo
-do coletivo, é claro.
(a consciência não pega ônibus)
Mas não se preocupe, caro passageiro,
É só um universitário bêbado e esse é um ônibus sério
- aqui se respeita a regra tácita da indiferença.
..
.
AQUI o passageiro pode dar um segundo de suspensão ao pensamento -
Recomenda-se olhar a janela com cara de quem sente:
Alguém morreu na contra-mão.
..
.
Depois dos intervalos comerciais, o bêbado continua:
"E me disse mais:
'Toda atividade humana é de interesse do artista!'
'Há certa beleza em um lugar fechado, cheio de pessoas em pé
e respirando o mesmo ar!'
'Não é preciso ser sensível para se ser um bom poeta!'
'O poeta mata mundos a cada escolha que faz!'
"Perguntei de que escola literária ele era.
Ele deu as costas e não respondeu,
mas acho que era a neo-nazista!"
(Arnaldo Vieira)
Imagem: http://www.flickr.com/photos/podrepobreepoeta/
quinta-feira, 2 de abril de 2009

A melhor forma de se tirar um prego do chão não é com os pés descalços,
Conforme descobri uns 10 pregos depois.
Mas aí já era tarde pra bancar o insensível
- em e com qualquer dos sentidos.
Tarde também para estancar o sangue antes que escorresse do chão,
Penetrasse nas veias (abertas)
e entupisse o coração e a aorta (nunca tão fértil).
Minha doença já não tinha mais cura.
A terra e suas dores se enraizaram em mim.
Eu era todo árvore, pássaro, riso, choro e suor.
- Vida! Vida!
..
.
Padeci no primeiro semáforo,
por excesso de humanidade.
(Arnaldo Vieira, achando que falta algo no texto, talvez mais um prego)
domingo, 29 de março de 2009
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