domingo, 25 de outubro de 2009

Maca sem número

Que linhas me ligam ao velho prostado ao meu lado,
deitado na maca 03, além de uma mulher
- a quem chamo de mãe e ele, de filha -,

uma remota humanidade e os versos de Borges, em seu solitário e belo ocaso?

Mesmo em um corredor de hospital, cercado de decrepitude e doença,
é preciso ler sobre a velhice pra sentir alguma misericórdia?
E se for isso, então o que faço aqui?
O que fazemos nós, junto a outros acompanhantes da morte e seus familiares pacientes,
aqui, onde só é bem atendido quem deseja a morte,
dividindo água e biscoitos, e rezando a Deus que ninguém se vá no nosso turno?

Em uma maca sem número, logo ao lado, uma (im)paciente mulher faz a passagem,
sem prestar qualquer atenção aos protestos da irmã ou às inúteis tentativas
do enfermeiro de colocar a alma de volta em seu corpo
São 03:52.
Horas antes, uma louca, noiva e filha de todos os que passam,
gritou a verdade impronunciável do lugar:
- Ela vai é morrer!

Aqueles que ainda podiam andar cercaram a morrente,
como os discípulos de Sócrates, esperando o gole de cicuta
- mas não há lei alguma sendo cumprida aqui!

De relance, os familiares olham para os seus doentes e,
só por um segundo, pensam:
- Ainda bem que não foi ele!

(Arnaldo Vieira, Socorrão II, 2009)

sábado, 27 de junho de 2009

Espólio


I
Do sonho, outrora imponente gigante
a reinar nos oceanos,
resta a carcaça à beira-mar.
cada pescador retira seu quinhão,
Mas são tantos os famintos pra tão pouca carne.

Do amor, cujo fim há muito fora previsto
pelas negras nuves em (con)formação,
Precipitara-se tempestade, surpreendo os passantes
- já não se sabia o que era a chuva e o que eram as lágrimas.

As memórias, saqueado navio, nunca chegaram ao porto,
nau-fragadas em alto-mar, ou seria no Lethes?
E de lá, rumo ao fundo, grita o capitão:
"- Ao vencedor as batatas!"
Mas já não se sabe quem venceu.

II

Tudo que chega à praia,
é uma caixa com seus pertences,
E nela seu testamento:

"Como último ato de vontade,
Das minhas parcas posses, que fique a melancólica gaita
aos que ainda vem, trazidos pelo vento.
- O Blues como herança!

Os silentes livros à crepitante fogueira, que a tudo põe fim.
As roupas, tão gastas, à terra, para cobrir suas vergonhas -
e são tantas, meu Deus!

E que a bússola tenha meu mesmo destino,
Esquecida de si, não aponte a direção aos que estão por vir
- serão livres o que não tem norte a seguir."

(Arnaldo Vieira)

sexta-feira, 19 de junho de 2009




Julio era daqueles, iguais só a ele mesmo, que não usava meias. Nas festas black-tie que costumava frequentar, os seus calcanhares eram, sem dúvidas, uma das grandes atrações. Eram tão redondos e branquinhos que pareciam até sorrir aos convidados.
A sua razão para deixar à mostra tais maravilhas da natureza era bem mais simples que sua boniteza; era que todas as meias que comprava ou ganhava das tias no natal eram imediatamente destinadas à proteção de sua coleção de bumerangues australianos contra os arranhões e intempéries de seu bem climatizado quarto.
Toda vez que lhe perguntavam sobre o porquê de tal insistência em não usar as meias, Julio sempre respondia que não as usava pelo simples fato de não ter dinheiro para comprá-las.
"É que a verdade é tão pouca imaginativa.", pensava sempre consigo, ao deixar os rostos em dúvida atrás de si.

(Arnaldo Vieira)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Eternamente



Precipitando-me de teu céu,
Após sentir tuas nuvens entre minhas penas,
Fui pedra em escrava queda rumo ao teu solo.
"Não há muito a fazer quando a vontade coincide com o destino"

Bicho renascido, percorri-te a terra, insaciável,
C
ego de em tudo te ver e louco de nunca alcançar-te.
Comi-te os frutos, mas nada são sem que te sejam partes
E, à parte disso, continuaste inteira em tua distante boniteza.

Sedento de ti, enxerguei-te fonte a jorrar sem rumo,

E com humanas mãos em sangue, em teu chão abri-te caminho,
criei-te leito onde teu inquieto sono pôde correr de-vagar,
Cobrindo-me por completo com tuas águas.

E, nessa hora, fugindo-me toda a tua respiração dos pulmões,

Preenchido de tua escuridão, estive morto e acordei,

caudaloso rio, desembocando eternamente em ti.

(Arnaldo Vieira)

terça-feira, 7 de abril de 2009




Uma das mãos na barra de apoio do ônibus,
Na outra, uma flor amarela de plástico.
Os sapatos azuis e vermelhos pulam, acompanhando o resto do corpo
a cada buraco que a mira perfeita do motorista acerta.
O palhaço chora.
Todos, gargalhando, acham que é parte do show.
"Vocês estão rindo de que?",
pergunta enquanto vende cartões cheios de mensagens de amor e solidariedade.

Que culpa ele se o choro soa tão cômico?

Meio metro ou dez pessoas à frente, um cego equilibrista pede esmolas
com uma das mãos, enquanto a outra segura a bengala.
"Deus conserve seus olhos!"- diz ele pra quem não lhe enxerga.
"Deus lhe pague em dobro!" - é o último recurso do sarcasmo.
Mas o que dizer pra Deus?

O professor de matématica ouve a conversa do lado,
enquanto segura seus livros e se segura no outros:
"- Agora já não é mais um triângulo. É um quadrado..."
Não há aqui nada pra ele; é só a geometria dos amores da novela das oito.
40 pessoas sentadas e 30 em pé, diz a placa.
"Não sei mais contar ou as 20 que não tocam o chão nao merecem referência?
Quero a abstração dos números, meu Deus!
As pessoas me doem os pés."

Lá no fundo comentam sobre o novo Zoológico gloBBBal:
"-Eu mesmo não assisto, só vi porque tava mudando de canal..."
Um outro lê no jornal:
"PRESUNTO NO FIM DE SEMANA!", "enquanto durar o estoque"
- só que é a mesma notícia nos anúncios e nas ocorrências,
e o estoque nunca acaba.

" - Um cara uma vez me disse que é antigo esse negócio do novo repetir o velho",
diz uma vozinha chata e bem baixa lá no fundo
-do coletivo, é claro.
(a consciência não pega ônibus)
Mas não se preocupe, caro passageiro,
É só um universitário bêbado e esse é um ônibus sério
- aqui se respeita a regra tácita da indiferença.
..
.

AQUI o passageiro pode dar um segundo de suspensão ao pensamento -
Recomenda-se olhar a janela com cara de quem sente:
Alguém morreu na contra-mão.
..
.


Depois dos intervalos comerciais, o bêbado continua:
"E me disse mais:
'Toda atividade humana é de interesse do artista!'
'Há certa beleza em um lugar fechado, cheio de pessoas em pé
e respirando o mesmo ar!'
'Não é preciso ser sensível para se ser um bom poeta!'
'O poeta mata mundos a cada escolha que faz!'

"Perguntei de que escola literária ele era.
Ele deu as costas e não respondeu,
mas acho que era a neo-nazista!"

(Arnaldo Vieira)
Imagem: http://www.flickr.com/photos/podrepobreepoeta/

quinta-feira, 2 de abril de 2009



A melhor forma de se tirar um prego do chão não é com os pés descalços,
Conforme descobri uns 10 pregos depois.
Mas aí já era tarde pra bancar o insensível
- em e com qualquer dos sentidos.
Tarde também para estancar o sangue antes que escorresse do chão,
Penetrasse nas veias (abertas)
e entupisse o coração e a aorta (nunca tão fértil).
Minha doença já não tinha mais cura.
A terra e suas dores se enraizaram em mim.
Eu era todo árvore, pássaro, riso, choro e suor.
- Vida! Vida!

..
.

Padeci no primeiro semáforo,
por excesso de humanidade.


(Arnaldo Vieira, achando que falta algo no texto, talvez mais um prego)

domingo, 29 de março de 2009



Gravito por entre sóis,
só, pequeno astro.
Sem luz ou significado próprios,
Orbe -
sem órbita única.
(Uni)
(Multi)
-
Verso
..
.
sem texto.


(Arnaldo Vieira,
com declaração parcial de inconstitucionalidade com redução de texto de Diego Santos, a argamassa virtual)